quinta-feira, 13 de julho de 2017

Dom Casmurro



Dom Casmurro é uma obra que perpetua na literatura brasileira desde os primórdios de sua publicação. Permanece até os dias de hoje como uma narrativa forte e envolvente, que traz dúvidas aos leitores ao invés de um enredo de certezas e clichês. É justamente por isso que ela é tão lida, estudada e comentada. Todas as análises que giram ao redor de Dom Casmurro tratam apenas de um assunto do enredo, que seria o possível adultério de Capitu, esposa e amor de Bento Santiago, o Bentinho. Entretanto, ao meu ver, a obra é muito mais que isso. Não nego, a possível traição é um ponto chave e importantíssimo da narrativa, mas não seu eixo principal.
O livro traça uma linha de evolução do personagem. Bentinho narra sua própria história, em primeira pessoa, de um ponto do presente, melancólico e nostálgico. O personagem principal faz seu próprio livro como se fosse um memorial, um diário de lembranças. O enredo conta desde a adolescência até o momento hodierno. É justamente nos tempos de jovem que ele conhece a misteriosa e envolvente Maria Capitolina, a Capitu. O narrador acaba se apaixonando por ela, que retribui o sentimento.
O título é logo explicado nas primeiras páginas. Casmurro é uma pessoa teimosa, ranzinza, sorumbática. É assim que Bentinho se desenvolve no enredo. Ele nem sempre fora uma pessoa assim, mas, com o passar do tempo, se tornou melancólico, motivado pelos acontecimentos que o acabaram afastando da felicidade. Na adolescência era um menino alegre, festivo. Morava com sua mãe, Dona Glória; José Dias, amigo e agregado da família; Tio Cosme e Prima Justina. A época era o Segundo Reinado, de Pedro II. D. Glória queria que o filho se tornasse padre – promessa feita há muito. Bentinho então vai para o seminário onde fica muito amigo de Escobar, um personagem belo e muito educado. Bentinho sai do seminário e vai estudar Direito, enquanto Escobar – que também larga a vida de batina – vai ser um homem de negócios.
O desenrolar dos anos passam até que bem para Bentinho e Capitu, que se casam. Escobar se casa com Sancha, amiga de infância de Capitu. Os dois casais se aproximam cada vez mais, evoluindo concomitantemente. Bentinho se desanima quando Escobar e Sancha viram pais. O narrador não conseguia engravidar sua amada, fazendo-o se sentir menos viril. As coisas entre ele e Capitu, então, começam a ficar conturbadas. Como característica de narração do cotidiano do personagem, episódios esporádicos vão acontecendo enquanto o autor, Machado de Assis, interpõe pequenos detalhes e acontecimentos que levam o leitor a se dirigir para um eixo enigmático e intrigante: Capitu e Escobar, com os olhares neuróticos de Bentinho.
Acredito que houve adultério. Apesar da história ter a visão do possível traído, são explícitos alguns comportamentos duvidosos de Capitu, como por exemplo, o dia em que Bentinho encontra com Escobar na porta de sua casa, sem saber o porquê ele estava ali. A evidência mais forte é, contudo, quando o personagem principal indaga diretamente sua amada que o filho de ambos, Ezequiel, era na verdade um fruto de relacionamento dela com o melhor amigo do marido. Quando questionada, Capitu não esboça indignação – reação característica quando alguém é acusado de algo que não fez.
Capitu apenas olha para Bentinho, sem palavras, sem se defender, tendo demonstrado uma forma de mea culpa de quem aceita que, de fato, errou. Esperava-se que, se ela fosse verdadeiramente inocente, esbravejaria contra tamanha acusação equivocada. Mas não. Ficou em silêncio, como se fosse uma pecadora amordaçada. Além deste episódio, o crescimento de Ezequiel faz com que este fique parecido com Escobar. Bentinho olhava seu filho e via a imagem e semelhança de seu melhor amigo, agora já falecido no enredo.
Aumentando suas convicções, Bentinho tinha a certeza que havia sido traído e, Capitu, gerado um bastardo. Era inevitável que os dois, então, se separassem. Capitu vai para o exterior, junto do rebento, enquanto Bentinho vive sob a égide de suas mágoas no Rio de Janeiro, o pano de fundo de toda a história. Dedica-se inteiramente à profissão e também ao seu memorial. Escreve sobre sua vida para expressar a dor crônica que ela adquiriu. De um menino alegre e eternamente apaixonado ele se transformou em um homem ranzinza traído pela sua esposa, amor de infância, e até mesmo pela sua própria sanidade mental.
Trazendo a ficção para a luz da realidade, Dom Casmurro retrata de maneira fática o delírio humano. Lendo os relatos cotidianos de Bentinho, percebe-se que o narrador não se encontrava em pleno usufruto de suas faculdades mentais. A cada episódio de sua vida, mais neuroses o personagem atribuía a si mesmo. Quando Bentinho, enfim, reencontra Ezequiel, parece-me que, finalmente, encontra-se com a paz. Conversando com o agora rapaz, o narrador transmite uma atmosfera de calmaria e conformidade.
A magnum opus de Machado de Assis é escrita estabelecendo uma forte conexão com a cidade do Rio de Janeiro. Mostra nitidamente a influência do imperador Dom Pedro II na vida do brasileiro da segunda metade do século XIX, com um cosmopolitismo característico da cidade carioca. Mistura de elites com uma gama de pessoas marginalizadas, relação sempre à vista dos diversos estrangeiros na cidade, principalmente europeus. Demonstra, também, a influência do catolicismo nos ditames da vida cotidiana, sempre vivendo sob a proteção de Deus e de seus representantes na Terra, os padres. O papel do homem como chefe da família – algo inabalável à época – é contrastado com o enredo da obra que expõe a vida de Bentinho e dos parentes que viviam juntos, sempre conduzidos com a força e destreza de Dona Glória, que tem o dever de cuidar inteiramente da casa e da família após o falecimento do marido. O papel da mulher na narrativa é de protagonismo social e comportamental.
Com todas essas particularidades, Dom Casmurro é um livro extremamente prazeroso de se ler, com uma escrita intrigante e concisa. Sem dúvidas, a obra estará sempre no imaginário e nas discussões dos brasileiros por retratar um período marcante da História social do Brasil e, de maneira atemporal, as nuances e delírios da psique humana.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Resultado e a obra mais votada



            O livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, foi a obra mais votada na enquete literária. Aguardem pela resenha.
            Obrigado a todos que votaram!