A noite gélida me trazia
memórias profundas e antigas. Parado, encostado em uma parede rústica, via-me
lembrando do passado, de tudo aquilo que vivi. Uma delicada chuva caía
colidindo com minha pele, percorrendo meu corpo. Via transeuntes vagando para a
direita e para a esquerda, sempre com um rumo certo a seguir. E eu lá, parado,
lembrando de todo o caminho que percorrera até ali. Sem predições.
[...]
A lembrança de estar sentado no sofá, ao lado de minha
Urânia, minha musa de além-céu. Abraçados, observávamos o céu nublado acima do
verde escuro das montanhas, através da larga janela. Ela passava suas mãos pelos
meus cabelos, fazendo-me sentir um sono suave e inocente. Adormeci em seus
braços, como uma criança é acalentada por sua mãe todas as noites.
Ao acordar, ela me indagou:
- Como dormiu?
Eu, ainda bêbado de sono e cansaço, não respondi. Minha
mente se ocupara de pensamentos ruins.
- O que está passando em sua cabeça?
- Não é nada. Só alguns pensamentos bobos.
- Nada que se passa em sua cabeça é bobo. Conte-me, meu anjo.
- É que... – as palavras fortes que eu proferiria
engasgavam-me – tenho medo...
Ela se assustou, parecendo ter perdido a respiração.
- Medo do que? O que te aflige?
Eu parei por alguns minutos, apenas observando a altivez
das montanhas e o penetrante céu cinza.
- Tenho medo de te perder. Medo que o nosso amor se
dilacere e se mutile com o tempo, até não sobrar mais nada além de pedaços
podres e desmembrados.
As palavras a atingiram com a violência de um tiro de espingarda.
[...]
A fina chuva ainda caía sobre mim, gelada, arrepiando-me.
Mais e mais pessoas caminhavam e passavam pela minha frente, umas em grupos,
outras sozinhas, tantas outras com suas respectivas paixões de mãos
entrelaçadas. Talvez a beleza da vida esteja em observar e sentir o amor, seja
o amor que temos pela natureza ou que temos uns pelos outros; pela árvore que
dá frutos na primavera, pela mãe que acalenta o filho que tem medo do escuro e
não consegue adormecer. Se não fosse este sentimento, o que seria de nós?
Decidi olhar o meu
relógio. Eram dez horas. Resolvi sair daquele estado de inércia e caminhar,
para onde quer que este caminho incerto me levasse.
O ser humano passou a amar seu semelhante a partir do
momento em que sentiu pesar ao ver um do grupo morto. Após este sentimento
apriorístico, iniciaram-se os processos funerários em razão do falecimento e,
aos vivos, começou-se a sentir carinho e proteção, o que mais tarde viríamos a
conhecer por amor. O carinho e
proteção é o que permite o ser humano preservar a espécie e proliferar seus
genes.
O amor me traz saudades.
Saudades do tempo que se foi e do que não se foi.
Esbulho-me em tentar arrancar de mim esta eterna melancolia, de dor profunda e
insuportável. Os demônios que saem de meu Hades atormentam-me à noite e logo
pela manhã, ao alvorecer e ao crepuscular de minha inquieta existência. Finda
em mim a esperança de encontrar mais uma vez a minha musa de além-céu. Onde
será que nos encontraremos mais uma vez, se ainda nos for possível fazê-lo?
Caminho, caminho. Deslizo e suspendo meus pés e repito o
movimento. A chuva fina agora caía com mais peso, doía ao tocar-me o corpo. Um
vento forte e frio soprava e as árvores fincadas nas calçadas balançavam em
sintonia, como uma dança de salão, uma performance belíssima da natureza. A
água precipitada fluía na direção de Éolo, sem pestanejar em seguir suas
ordens. O Senhor dos Ventos iniciara sua fúria e tive de arrumar um abrigo
provisório.
[...]
Urânia e eu corríamos naquele fim de tarde. Ela, tão
linda e agradável, ria molhada pela chuva que caíra repentinamente sobre nós.
Achamos uma lanchonete e ali paramos, fugindo da água impiedosa. Sentamos em
uma mesinha quadrada e muito limpa. Eu observava a rua, com carros indo a uma
velocidade preocupante.
Voltei minha atenção para ela e percebi que me olhava.
Seus grandes olhos fitavam-me e, por um momento, perdi-me em sua beleza, de
pele branca como a neve e longos cabelos negros.
- O que foi? – perguntei, com certa timidez.
Ela
sorriu:
- Você é maravilhoso. Sua existência dá propósito a
minha.
Fiquei envergonhado com tamanho afeto. Minhas bochechas
coraram quando a garçonete nos interrompeu:
- O que os dois pombinhos vão querer?
Demos uma risada e pedimos água. Ela se retirou.
- Você também é maravilhosa. Acordo todos os dias feliz
porque sei que você me ama e eu te amo. E isso basta. Não preciso de mais nada.
- É muito bom ouvir isso. Sinto uma paz tão grande quando
estou contigo!
E, naquele fim de tarde, ali ficamos, sentados, olhando
para o mundo lá fora e para o nosso mundo, eu e ela. Olhando para o incerto e
para a certeza. Nossos corações palpitavam em magistral sintonia.
[...]
O tal abrigo provisório era um modesto bar, que, em seu
meio, ficava uma grande mesa de bilhar. Sentei em sua entrada, no degrau. O
estabelecimento estava completamente vazio, exceto pelo dono, nos fundos, e um
homem dormindo sentado numa cadeira, com uma garrafa de pinga vazia em cima de
sua mesa.
O tal homem cheirava um pouco forte mesmo distante.
Vestia uma calça social meio rasgada, estava descalço e com uma barba
desgrenhada e suja. Por baixo de um casaco, nada além de uma camiseta de loja
de material de construção. Fiquei sentado no degrau, ainda sem rumo, pois a
chuva apertara. Raios começaram a cruzar o infinito acima de minha cabeça, com
fortes trovões a ribombar pelos quatro cantos do mundo. A fúria de Zeus
iniciara e percebi que teria de ficar naquele bar por algumas boas horas.
O dono saiu de sua bancada e foi até a entrada. Olhou
para mim e nada disse, apenas estendeu um pouco mais o toldo. Ficou de pé,
observando o escasso movimento que ainda restava na rua. Voltou para o seu
lugar.
Passados bons minutos, cochilei. Tão rápido voltei à
consciência e vi que, ao meu lado, o tal bêbado se encontrava. Ele olhava
diretamente para mim. Sua pele era cor de âmbar e possuía grandes olhos
castanhos, intimidadores. Assustei, pois ele me encarava de maneira enfática
com um ligeiro sorriso psicótico em seu rosto.
- É... posso ajudá-lo? – indaguei.
Ele sorriu. Alguns poucos dentes ainda restavam de pé em
sua boca.
- Ora, meu jovem – sua voz era límpida e me parecia que
não se afetara tanto pela garrafa de pinga – parece-me que quem precisa de
ajuda aqui é você.
Franzi o cenho, procurando entender o que aquilo significava.
Um mendigo, perdido na porta de um bar, aparentemente não precisava de ajuda e
o pobre-diabo da história era eu.
- Hum... preciso?
Ele abriu o casaco e retirou um pequeno e gordo frasco.
Abriu sua tampa e senti um fortíssimo cheiro de álcool. Deu três goles e me
ofereceu. Dispensei a bebida.
- Bem, meu jovem... sim, precisa. Venho aqui quase todas
as noites, mas não porque não tenho para onde ir. Venho, pois, é aqui que quero
estar. Isto se chama liberdade. Ao
meu ver, você, senhorzinho, não está aqui por mera liberdade. Chegou aqui
porque é prisioneiro de escolhas passadas. Más escolhas, eu diria.
Pedi um gole daquele líquido que ele acabara de tomar.
Ele, alegremente, me entregou o frasco. Abri-o e dei um gole profundo. A
bebida, forte e acre, desceu queimando minha garganta e esquentando todo o meu
corpo. Com o conhaque, a coragem se criou.
- Creio que o senhor esteja certo... não há análise melhor
do que a que acabou de fazer. Queria estar em outro lugar.
- Ora, e por que não está?
- É difícil de explicar... estraguei tudo.
- Más escolhas, más escolhas... todos nós as fazemos. A
vida é um jogo que não nos dá um manual prévio. Aprende-se dia após dia. E,
mesmo assim, ainda não sabemos de nada. Só sabemos que nada sabemos, como diria
aquele filósofo. E isso já é saber alguma coisa, não?
[...]
Meus pais e eu andávamos por uma trilha, um tortuoso
caminho de areia e pedra. O Sol escaldante nos atacava sem nenhuma
misericórdia, nos desidratando violentamente. Era um domingo de manhã, e sempre
– ou quase sempre – fazíamos algum passeio pela natureza, para banharmos a
alma.
Aquela fazenda que percorríamos era extensa, uma porção
de terra muito vasta. A estrada vicinal era estreita e os campos ao redor eram
repletos de árvores, muitas delas frutíferas. Pelo pasto, via-se um grupo de
bois e cabritos, em perfeita harmonia. Em volta deles, alguns cachorros os
protegiam, sempre atentos a qualquer animal estranho.
O sentimento de
proteção ali existente possivelmente não expressava amor, ou, talvez,
demonstrasse uma ligeira sensação de dever. Após alguns anos, entretanto,
relembrando este episódio, percebo que, muito possivelmente, os animais amam
uns aos outros. Todo e qualquer extinto de sobrevivência deriva de carinho e
proteção, ou seja, de amor.
Mas amor também é sofrimento. Nenhum belo pomar se
perpetua na existência terrestre sem passar por breves períodos de tortuosos
outonos. As folhas caem, as pétalas se desfazem, as cores vívidas se enegrecem.
O ódio percorre nossas veias, a tristeza ataca nosso coração. Mas, muito em
breve, a alvorada nasce novamente, as folhas voltam, as pétalas se restauram e
o mundo vive outra vez.
Naquela trilha, via como meus pais se amavam. E via,
também, seu amor por mim.
- Mãe, se eu um dia me perder na vida, ainda continuará a
me amar?
Ela riu, como se eu estivesse dizendo a maior bobagem do
mundo.
- Filho, mas que pergunta! O amor dos pais pelos seus
filhos é infinito. É transcendental, não há limites e tampouco requisitos.
Existe desde a concepção ou desde o primeiro encontro. É algo inexplicável.
Refleti sobre esta afirmação por alguns instantes.
- Mesmo se um dia eu me tornasse um criminoso?
- Sim, filho. Não há condições. Amaremos até o final dos
tempos e além.
- Acredite, filhão. Veja o céu logo ali!
Não entendi o porquê de meu pai estar me falando para
fazer isso, mas o fiz.
- O que tem o céu, pai?
- Veja como ele é infinito e, depois dele, todo o
Universo a se expandir. Estamos aqui embaixo, pontos insignificantes nesta
vastidão cósmica. Deus nos amou e por isso podemos contemplar a vida. Não somos
nada para o Cosmos, mas somos tudo para Deus, assim como os filhos são tudo
para os pais. Contemple, filho, e sinta o amor.
Aquilo me tocou e percebi que a vida é mais do que
percebemos, mais do que aquilo que os olhos são capazes de enxergar. Devemos
olhar além, ultrapassar todo e qualquer obstáculo, toda escuridão pessoal.
Devemos ver com o coração.
[...]
- Por acaso o senhor é algum tipo de professor?
Indaguei, assustado com aquelas afirmações tão
penetrantes. Nunca conhecera alguém tão sábio quanto ele, fazendo-me lembrar de
meus pais.
Ele riu.
- Ora, nunca fui nada além daquilo que sou. O magistério
que escolhi foi o magistério da vida. O verdadeiro conhecimento está naquilo
que se pode, primeiramente, observar e, depois, refletir e alcançar um
entendimento que os olhos não puderam lhe proporcionar. O que te aconteceu?
- Bem... perdi tudo o que eu tinha. Decepcionei aqueles
que me amavam.
- Hum... eles te amam ainda. Talvez seu medo de os ter
decepcionado te impeça de voltar para eles. Já pensou nisto?
- Penso, todos os dias. É complicado. O que devo fazer?
- Meu senhorzinho, ainda és jovem! E mesmo que não o
fosses, seremos todos jovens até o dia em que Tânatos nos visitar. Veja o céu,
cai água límpida e fecunda! Enquanto a Terra for fértil, teremos tempo para
consertar nossos erros. Faça aquilo que teu coração mandar. Enfrente o medo.
Ame!
Olhei diretamente nos olhos daquele homem tão sábio e
misterioso. Seu rosto marcado pelas intempéries de uma vida sem luxos, mas com
rico conhecimento, me proporcionava uma nova perspectiva. Tudo aquilo que se
passou em minha vida não fora nada além do que a própria vida. Más escolhas, boas escolhas, tudo se encaminhou para que eu
pudesse chegar ali, naquela parca taverna, encontrar aquele homem e perceber
que viver é amar e superar as dificuldades.
Ele, então, se levantou e caminhou pela rua, seguindo seu
rumo. A chuva forte ainda caía e os ventos sopravam com violência. Levantei-me
e iniciei uma caminhada, na direção de onde eu viera. As gotas d’água caíam
sobre mim e sentia frio, mas nada disso importava. A rua vazia era uma estrada
sem fim que eu podia traçar, indo em direção ao lugar que eu nunca deveria ter
abandonado. Lembranças boas vinham em minha mente, lembranças de um tempo que
eu gostaria que voltasse.
Meus
passos me transportavam para a vida futura.
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