O
medo é um sentimento equívoco. Reflete no ser humano diversas reações, diversos
pensamentos. O que é o medo? Apenas uma reação bioquímica? Apenas uma emoção? Apenas
uma palavra? Um sentimento psicológico? Um sentimento filosófico? O medo é uma
condição que todos nós temos, uma chama que acende e apaga durante o dia a dia
do homem.
A morte não nos traz medo; o que
traz é como iremos morrer. Quem não
quer morrer com mais de 100 anos, dormindo, numa noite tranquila, sem sentir
dor ou qualquer sofrimento? Outro aspecto da morte que nos aflige é o que vem depois dela. Paraíso, purgatório,
inferno, limbo, outra vida, outro mundo, nada... O que nos faz acreditar em
qualquer uma dessas hipóteses é a fé – ou a falta dela.
Quando somos crianças, o medo nada
mais é do que aquele sentimento que temos ao ficar no escuro sozinhos, ao ver
uma bruxa ou outro monstro na televisão... quando crescemos, percebemos –
muitas vezes – que essas criaturas não existem. O ceticismo começa a florescer
à medida que desenvolvemos nosso intelecto e passamos a enxergar a vida e o
medo de outro modo; o único monstro que existe no mundo é o próprio ser humano.
A partir disso, o medo passa a ser nada mais do que um sentimento de aflição em
relação ao ser humano e as suas respectivas atitudes, sejam estas diretas ou
indiretas.
O medo que temos de alguém nos
matar, por exemplo, expressa bem esta ideia. Não temos medo da morte em si, mas
sim da violência e da falta de naturalidade desta morte. Não é a nossa hora e
simplesmente uma pessoa nos tira a vida com demasiada agressão, como se
coubesse a este assassino decidir sobre a vida de outra pessoa de maneira
arbitral e não dando a chance de defesa para a vítima, sendo esta inocente.
Para Thomas Hobbes (1588-1679) o
homem é essencialmente mau, e qualquer atitude contrária a isso seria uma
evolução social do mesmo, que aprenderia evolutivamente a conviver de maneira
pacífica com seus semelhantes. Na visão de Jean-Jaques Rousseau (1712-1778), em
contrapartida, o homem é essencialmente bom e qualquer atitude contrária a isso
é uma influência do meio em que ele vive. Com essas teorias análogas, o medo de
ser assassinado varia de sociedade para sociedade (o medo de morrer deste jeito
no Brasil é imensuravelmente maior do que alguém que tenha nascido em algum
país escandinavo). Numa visão hobbesiana, aqueles que tem menos medo de ser
assassinados vivem em uma sociedade mais evoluída socialmente, enquanto que em
uma visão rousseauniana, estes vivem em uma sociedade mais ligada a natureza
humana.
O medo, portanto, pode ser encarado
de maneira cética e desprendido de qualquer superstição. Não são bruxas,
demônios, lobisomens, que roubam, destroem, explodem, dirigem alcoolizados, fazem
guerras, matam... o homem causa sua própria destruição. Por tudo isso, o
sentimento de medo é equívoco, entretanto, o causador do mesmo na maioria das
vezes é apenas o ser humano.
Qualquer ser vivo é mortal e devemos
encarar a morte como um alívio, missão cumprida. A vida social moderna encara
muitas vezes a morte como um sinal trágico, levando a desesperança, sofrimento
e autodestruição; entretanto, analisando a morte como um acontecimento necessário
para a reciclagem orgânica do planeta e naturalmente aceita entre os seres
vivos, mostra que deve se haver um certo alívio quanto a morte de alguém.
Por obviedade, este eterno luto para
com aqueles que morreram é fruto desta própria vida social moderna. Evoluímos de
um modo que existe a possibilidade de
vivermos em sociedade sem ter o medo de morrer – ou de sermos mortos por outra
pessoa. Todavia, esta condição é cultural:
algumas civilizações são mais evoluídas que outras. Enquanto isto acontecer, a
civilização humana como um todo estará fadada ao medo e a aflição de como se
irá morrer e aos tormentos que criamos para nos aterrorizarmos.

