domingo, 31 de julho de 2016

Medo e morte



O medo é um sentimento equívoco. Reflete no ser humano diversas reações, diversos pensamentos. O que é o medo? Apenas uma reação bioquímica? Apenas uma emoção? Apenas uma palavra? Um sentimento psicológico? Um sentimento filosófico? O medo é uma condição que todos nós temos, uma chama que acende e apaga durante o dia a dia do homem.
          A morte não nos traz medo; o que traz é como iremos morrer. Quem não quer morrer com mais de 100 anos, dormindo, numa noite tranquila, sem sentir dor ou qualquer sofrimento? Outro aspecto da morte que nos aflige é o que vem depois dela. Paraíso, purgatório, inferno, limbo, outra vida, outro mundo, nada... O que nos faz acreditar em qualquer uma dessas hipóteses é a fé – ou a falta dela.
        Quando somos crianças, o medo nada mais é do que aquele sentimento que temos ao ficar no escuro sozinhos, ao ver uma bruxa ou outro monstro na televisão... quando crescemos, percebemos – muitas vezes – que essas criaturas não existem. O ceticismo começa a florescer à medida que desenvolvemos nosso intelecto e passamos a enxergar a vida e o medo de outro modo; o único monstro que existe no mundo é o próprio ser humano. A partir disso, o medo passa a ser nada mais do que um sentimento de aflição em relação ao ser humano e as suas respectivas atitudes, sejam estas diretas ou indiretas.
        O medo que temos de alguém nos matar, por exemplo, expressa bem esta ideia. Não temos medo da morte em si, mas sim da violência e da falta de naturalidade desta morte. Não é a nossa hora e simplesmente uma pessoa nos tira a vida com demasiada agressão, como se coubesse a este assassino decidir sobre a vida de outra pessoa de maneira arbitral e não dando a chance de defesa para a vítima, sendo esta inocente.
       Para Thomas Hobbes (1588-1679) o homem é essencialmente mau, e qualquer atitude contrária a isso seria uma evolução social do mesmo, que aprenderia evolutivamente a conviver de maneira pacífica com seus semelhantes. Na visão de Jean-Jaques Rousseau (1712-1778), em contrapartida, o homem é essencialmente bom e qualquer atitude contrária a isso é uma influência do meio em que ele vive. Com essas teorias análogas, o medo de ser assassinado varia de sociedade para sociedade (o medo de morrer deste jeito no Brasil é imensuravelmente maior do que alguém que tenha nascido em algum país escandinavo). Numa visão hobbesiana, aqueles que tem menos medo de ser assassinados vivem em uma sociedade mais evoluída socialmente, enquanto que em uma visão rousseauniana, estes vivem em uma sociedade mais ligada a natureza humana.
       O medo, portanto, pode ser encarado de maneira cética e desprendido de qualquer superstição. Não são bruxas, demônios, lobisomens, que roubam, destroem, explodem, dirigem alcoolizados, fazem guerras, matam... o homem causa sua própria destruição. Por tudo isso, o sentimento de medo é equívoco, entretanto, o causador do mesmo na maioria das vezes é apenas o ser humano.
      Qualquer ser vivo é mortal e devemos encarar a morte como um alívio, missão cumprida. A vida social moderna encara muitas vezes a morte como um sinal trágico, levando a desesperança, sofrimento e autodestruição; entretanto, analisando a morte como um acontecimento necessário para a reciclagem orgânica do planeta e naturalmente aceita entre os seres vivos, mostra que deve se haver um certo alívio quanto a morte de alguém.
        Por obviedade, este eterno luto para com aqueles que morreram é fruto desta própria vida social moderna. Evoluímos de um modo que existe a possibilidade de vivermos em sociedade sem ter o medo de morrer – ou de sermos mortos por outra pessoa. Todavia, esta condição é cultural: algumas civilizações são mais evoluídas que outras. Enquanto isto acontecer, a civilização humana como um todo estará fadada ao medo e a aflição de como se irá morrer e aos tormentos que criamos para nos aterrorizarmos.

sábado, 16 de julho de 2016

Gutenberg, o homem que revolucionou a vida humana

         Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg é, sem dúvida alguma, o grande transformador dos ditames da História do ser humano moderno. Se não fosse por ele, com certeza o desenvolvimento tecnológico e intelectual da sociedade humana demoraria ainda vários séculos para atingir o nível que atingiu após sua extraordinária invenção: a prensa industrial.
           Imagine-se em um mundo onde os livros, os jornais, as revistas, e tudo aquilo que é impresso em grande escala, fossem relíquias e requinte dos mais abastados ou de uma classe religiosa; não haveriam livrarias, redes de notícias, bibliotecas; a informação chegaria até nós de maneira lenta, pois quiçá o ser humano não teria capacidade intelectual de dominar nem mesmo a eletricidade; grandes pensadores não teriam seus escritos publicados de maneira a satisfazer suas vontades e atingir todos os níveis da sociedade, para assim mudá-la... onde estaria a intelectualidade de nossa civilização? Foi dessa vida que Gutenberg nos salvou. Ele nasceu em 1398, em Mainz, no antigo Sacro Império Romano-Germânico, correspondente a atual Alemanha.
  Em sua juventude, demonstrou um afinco interesse em livros, lendo a maior parte de seus dias. Deve-se ressaltar que, durante a Idade Média, – período histórico que se passa a vida de Gutenberg – as obras eram escritas à mão, e quem detinha o conhecimento intelectual da época era a Igreja Católica, deixando a cargo de monges e escribas o trabalho de produzir livros e demais materiais didáticos. Com o monopólio cultural da Igreja, os livros tinham preços altos e eram inacessíveis ao público em geral. Em seu trabalho como ourives, dominava a técnica de fundição e moldes de ouro e prata, que mais tarde lhe auxiliariam em sua grande invenção. Seus trabalhos com joias eram considerados artísticos e de ótima qualidade
  Era filho de um rico comerciante local, Friele Gensfleisch zur Laden, que mais tarde adotaria o sobrenome “zum Gutenberg”, referente a comunidade que se mudara com sua família. Johannes Gutenberg iniciou, segundo consta sua historiografia, como ourives do bispo de Mainz, entretanto, também é conhecido por ter sido um notável vendedor de roupas. 
Em meados de 1455, após anos de pesquisas e criações, Gutenberg pegou nas mãos seu legado em forma de livro, - uma Bíblia - impresso com uma técnica infalível: a prensa de tipos móveis. A impressão já existia na China antiga há mais de dez séculos, entretanto, a criação de Gutenberg, que moldara os tipos em um material bem mais resistente e durável que os usados pelos chineses, deixou a impressão extremamente eficaz e dinâmica, alcançando números de produções industriais.
 A partir desta invenção, os livros passaram a ser não mais uma exclusividade intelectual e monetária dos monges católicos e seus escribas, mas sim de toda a humanidade. Gutenberg conseguiu ser o grande dínamo que faltava para que a corrente do Renascimento dominasse a sociedade europeia. Até o ano de 1489, suas prensas já haviam alcançado a Itália, França, Espanha, Holanda, Inglaterra e Dinamarca. Em 1500, cerca de 15 milhões de livros já haviam sido impressos.
Apesar disso, o poderio da Igreja Católica ainda era dominante nos setores da sociedade que produziam livros e demais materiais a partir da prensa. Mas, por outro lado, a invenção de Gutenberg foi o grande arranque para que a Europa e a humanidade tivessem em mãos o poder de desenvolver e elevar o nível de inovação da civilização humana. Se não fosse por Johannes Gutenberg, a vida nunca seria como é hoje – ou demoraria longos séculos até que o fosse. Livros seriam peças raras, bem como nossa liberdade.
A prensa de Gutenberg

     


sábado, 2 de julho de 2016

O deus de duas caras

         Jano é um deus não muito conhecido e difundido na cultura moderna, entretanto, uma divindade importantíssima para a cultura romana antiga e nosso modo de vida atual. Como qualquer mito, suas origens não são precisas e várias lendas surgem sobre o assunto. A versão mais aceita conta que Jano foi um humano, um homem, que fugiu da região grega da Tessália em direção ao pequeno reino de Alba Longa. Ao chegar no novo local, que ficava às margens do rio Alba, Jano atravessou o rio e fundou um simples vilarejo, chamado de Janiculum
Após um tempo, o rei de Alba Longa, Camesus, morreu, deixando o reino em estado de insuficiência administrativa. Com isso, o vilarejo de Jano foi a grande fortaleza para os moradores de Alba Longa, tornando-se o primeiro rei de toda a região do Lácio. A lenda diz que em uma das viagens do todo-poderoso Saturno, voltando da Grécia, o rei Jano proveu-lhe abrigo e comida. Quando Jano morreu, Saturno, em um ato simbólico de agradecimento, divinizou-o, ou seja, tornou-o um deus.    Tudo isso, no que remete ao início da história de Roma, torna Jano um dos deuses mais antigos da mitologia romana. Por esta conexão íntima com os primórdios de Roma, é o maior deus exclusivamente romano, ou seja, não há sua versão grega: é exclusivo da cultura latina. 
Jano é o deus de duas caras; um corpo apenas e duas faces. Uma delas é de um homem velho, com cabelos longos e uma grande barba, enquanto que a outra é um rosto jovial, de cabelos não tão longos e sem nenhum pelo facial. Jano é atribuído aos começos e aos fins, ao início e ao final, a entrada e a saída. Para demonstrar sua importância, seu nome sempre era mencionado antes de Júpiter em orações. Ele era protetor do início de todas as atividades e inaugurador das estações do ano . O primeiro dia de cada mês era destinado à ele, mas o primeiro mês do ano (janeiro) - que muitos hoje em dia consideram nomeado em sua honra - foi na verdade em homenagem a Juno, rainha dos deuses.
            Jano era, também, a representação do passado e do futuro. O ponto central da figura mitológica e histórica deste homem que virou deus é suas atribuições, levando a grandes ensinamentos filosóficos e até mesmo psicológicos. Seu culto promove com grandes forças o dualismo da cultura romana que se tornou base para toda a cultura ocidental. Mostra o contraste – bem caracterizado pelas suas faces – entre o novo e o velho, aquilo que foi e aquilo que será.
            Seu dualismo traz aos romanos – assim como a nós também – o sinônimo e o antônimo, promovendo paz ou guerra, amor ou ódio. Cada uma de suas faces levava o fiel a dois extremos de uma mesma verdade. Aqueles que buscavam sua ajuda e intercessão, deparavam-se com dois únicos caminhos a seguirem, um completamente o oposto do outro. Com o passar da história, Jano também começou a carregar algumas atribuições referentes a charadas e enigmas, que geralmente leva a uma resposta de duas verdades – ou mentiras - , sendo uma representação de suas duas faces.
            A cultura ocidental, como um todo, tem muitas características de Jano. Este deus foi muito difundido durante o Renascimento, que enfatizou o dualismo tradicional cristão no modo de vida do europeu. O Deus de Duas Caras é imortalizado diariamente pelas situações simplórias em que nos encontramos, tendo que decidirmos entre uma coisa ou outra, somente. Com isso, Jano nos mostra que seguir em uma via pode nos levar a uma bifurcação, cada uma com suas particularidades, atribuições boas e ruins, sendo que quem decide qual caminho seguir é sempre cada um de nós.

            

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Odisseia

           *discurso de formatura; 09-11-2015

            Ciclos são infinitos ou finitos? Há momentos na vida em que você se encontra no fim de uma jornada. Há momentos na vida em que você percebe que a estrada acabou e que agora é sua obrigação escolher outro rumo a seguir. Como em um passe de mágica, sua história deve ser reescrita. Reescrita ou continuada? Cabe a você definir. Permanecer em um mesmo ciclo, neste caso social, durante mais do que 60% do seu dia a dia e de sua vida é assustador. E chega uma hora que esse ciclo para, e como a Terra que gira durante 365 dias ao redor do Sol, também termina sua etapa mas logo a inicia mais uma vez, pois seu papel é determinado por forças além de nossa capacidade de compreensão.
            E nós? Temos nosso papel definido? Ou criamos nosso próprio destino, mesmo ainda sem ter a convicção das mais simplórias tarefas do cotidiano? A vida não tem piedade e ela nos entrega um enorme fardo para carregar em poucos meses. Somos nós que decidimos o que escolhemos fazer de nossa vida? Somos nós que trilhamos nosso caminho? De quem é a nossa vida, senão apenas nossa por natural e divino direito? São retóricas que nem mesmo o silêncio pode responder de imediato.
            Estamos juntos, querendo ou não. Mais precisamente, estivemos juntos, querendo ou não. Caminhos distintos foram trilhados a partir de um mesmo ponto de partida: a sala de aula. Sala esta que carrega consigo inúmeras histórias e experiências, anseios e frustrações, sonhos e medos. Amizades foram construídas, desconstruídas, feitas, desfeitas, reconstruídas e refeitas. Amizade é laço tênue com poder de fogo; amizade é sorriso que queima a tristeza entranhável do coração.
            Por fim, e fim mesmo, concluímos nosso ciclo. Grande ciclo para uns, pequenos para outros. Intenso para todos. Como uma obra-prima, finaliza-se uma página, uma pincelada, porque o projeto final é apenas no último suspiro da vida. Não devemos nos esquecer nunca que ciclos humanos são finitos, pois a vida é uma odisseia composta de vários capítulos. É necessário continuar a caminhada e erguer a cabeça, lembrando sempre que somos protagonistas de nossa própria história.