O Rio de Janeiro foi tomado
por dois grandes acontecimentos simultâneos: a guerra do tráfico e o Rock in Rio. O primeiro, causado pela
disputa de poder na Favela da Rocinha; o segundo, oriundo da busca pelo prazer
utilitarista.
Falar de violência no Brasil é, infelizmente, clichê,
sobretudo em relação ao Rio. A destruição de nosso país passa por ineficiência
estatal na educação básica e na prevenção-repressão dos crimes. O fato é que,
nas duas últimas semanas, a capital fluminense se viu tomada de súbito por uma
pequena guerra entre Nem e Rogério 157, dois grandes traficantes da Rocinha.
O motivo é comum: a busca incessante pelo poder. Soldados dos dois chefões
entraram diariamente em confronto, como em cenário de filme, portando fuzis e
atirando sem a menor preocupação com o pobre cidadão comum, que só quer
trabalhar e sustentar a família.
Após dias seguidos de tiroteios e a dificuldade da
polícia estadual em conter a situação, o governador decidiu, por fim, pedir
auxílio ao Exército brasileiro. Foi decretado, portanto, que as Forças Armadas
intervissem na Rocinha, fazendo um cerco para que ninguém entrasse ou saísse.
A guerra às drogas é ineficiente, cara e deixa
incontáveis inocentes mortos. Todos nós estamos suscetíveis a sermos vítimas do
tráfico direta ou indiretamente; bala perdida, assalto, homicídio: a maioria
dos crimes registrados no Brasil tem relação com o tráfico.
A marginalização de seguimentos da sociedade nacional
remonta desde a Coroa portuguesa, passando por todos os períodos da História do
Brasil. A falta de planejamento na desenvoltura social e urbana fez com que o
marginalizado escolhesse o modo que lhe seria mais fácil ganhar a vida: o
crime.
No Rio, até mesmo em bairros ricos, o cidadão se vê,
muitas vezes, surpreendido por tiroteios, arrastões e demais absurdos. Não há
ninguém seguro. Os bandidos – até mesmo os de gravata – são quem manda no país.
Neste cenário extremo de guerra entre traficantes na
maior favela das américas, a mesma cidade foi palco do tradicional e
cosmopolita evento Rock in Rio – que
está mais para um “Pop in Rio”,
diga-se de passagem. Enquanto mães choravam por seus filhos nas favelas,
milhares de pessoas se divertiam na redoma da Cidade do Rock.
O contraste é grande. E passou despercebido pela grande
mídia.
É latente a necessidade de conectar e contextualizar as
diferenças negativas que existem neste episódio.
Um ingresso do evento custa uma fortuna. Pessoas injetaram
bastante dinheiro para ganharem algumas horas de diversão, em um mundo à parte,
onde os heróis usam instrumentos musicais. No outro mundo, as balas encontravam
seus alvos e o terror tomava conta das comunidades pobres.
Este cenário é característico do Brasil. Desde sempre,
grandes conglomerados de elite se protegiam do verdadeiro Brasil – pobre,
subdesenvolvido e violento – em suas grandiosas mansões. Nos dias atuais, esta
mesma camada se esconde em eventos internacionais, clubes privados e demais
espaços próprios.
Aqueles que não tem nem o mínimo para viver sadiamente
ficam expostos ao caos da guerra às drogas em verdadeiros fronts urbanos. Enquanto havia suor na Cidade do Rock, no Rio de
Janeiro de verdade havia sangue sendo jorrado no chão e o ar sendo respirado em
forma de medo.
Até quando este triste contraste reinará?
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