domingo, 8 de abril de 2018

Uma noite tempestuosa, ou: sobre o amor, a vida e a sabedoria


           

            A noite gélida me trazia memórias profundas e antigas. Parado, encostado em uma parede rústica, via-me lembrando do passado, de tudo aquilo que vivi. Uma delicada chuva caía colidindo com minha pele, percorrendo meu corpo. Via transeuntes vagando para a direita e para a esquerda, sempre com um rumo certo a seguir. E eu lá, parado, lembrando de todo o caminho que percorrera até ali. Sem predições.
            [...]

            A lembrança de estar sentado no sofá, ao lado de minha Urânia, minha musa de além-céu. Abraçados, observávamos o céu nublado acima do verde escuro das montanhas, através da larga janela. Ela passava suas mãos pelos meus cabelos, fazendo-me sentir um sono suave e inocente. Adormeci em seus braços, como uma criança é acalentada por sua mãe todas as noites.
            Ao acordar, ela me indagou:
            - Como dormiu?
            Eu, ainda bêbado de sono e cansaço, não respondi. Minha mente se ocupara de pensamentos ruins.
            - O que está passando em sua cabeça?
            - Não é nada. Só alguns pensamentos bobos.
            - Nada que se passa em sua cabeça é bobo. Conte-me, meu anjo.
            - É que... – as palavras fortes que eu proferiria engasgavam-me – tenho medo...
            Ela se assustou, parecendo ter perdido a respiração.
            - Medo do que? O que te aflige?
            Eu parei por alguns minutos, apenas observando a altivez das montanhas e o penetrante céu cinza.
            - Tenho medo de te perder. Medo que o nosso amor se dilacere e se mutile com o tempo, até não sobrar mais nada além de pedaços podres e desmembrados.
            As palavras a atingiram com a violência de um tiro de espingarda.
            [...]

            A fina chuva ainda caía sobre mim, gelada, arrepiando-me. Mais e mais pessoas caminhavam e passavam pela minha frente, umas em grupos, outras sozinhas, tantas outras com suas respectivas paixões de mãos entrelaçadas. Talvez a beleza da vida esteja em observar e sentir o amor, seja o amor que temos pela natureza ou que temos uns pelos outros; pela árvore que dá frutos na primavera, pela mãe que acalenta o filho que tem medo do escuro e não consegue adormecer. Se não fosse este sentimento, o que seria de nós?
             Decidi olhar o meu relógio. Eram dez horas. Resolvi sair daquele estado de inércia e caminhar, para onde quer que este caminho incerto me levasse.
            O ser humano passou a amar seu semelhante a partir do momento em que sentiu pesar ao ver um do grupo morto. Após este sentimento apriorístico, iniciaram-se os processos funerários em razão do falecimento e, aos vivos, começou-se a sentir carinho e proteção, o que mais tarde viríamos a conhecer por amor. O carinho e proteção é o que permite o ser humano preservar a espécie e proliferar seus genes.
            O amor me traz saudades.
            Saudades do tempo que se foi e do que não se foi. Esbulho-me em tentar arrancar de mim esta eterna melancolia, de dor profunda e insuportável. Os demônios que saem de meu Hades atormentam-me à noite e logo pela manhã, ao alvorecer e ao crepuscular de minha inquieta existência. Finda em mim a esperança de encontrar mais uma vez a minha musa de além-céu. Onde será que nos encontraremos mais uma vez, se ainda nos for possível fazê-lo?
            Caminho, caminho. Deslizo e suspendo meus pés e repito o movimento. A chuva fina agora caía com mais peso, doía ao tocar-me o corpo. Um vento forte e frio soprava e as árvores fincadas nas calçadas balançavam em sintonia, como uma dança de salão, uma performance belíssima da natureza. A água precipitada fluía na direção de Éolo, sem pestanejar em seguir suas ordens. O Senhor dos Ventos iniciara sua fúria e tive de arrumar um abrigo provisório.
            [...]

            Urânia e eu corríamos naquele fim de tarde. Ela, tão linda e agradável, ria molhada pela chuva que caíra repentinamente sobre nós. Achamos uma lanchonete e ali paramos, fugindo da água impiedosa. Sentamos em uma mesinha quadrada e muito limpa. Eu observava a rua, com carros indo a uma velocidade preocupante.
            Voltei minha atenção para ela e percebi que me olhava. Seus grandes olhos fitavam-me e, por um momento, perdi-me em sua beleza, de pele branca como a neve e longos cabelos negros.
            - O que foi? – perguntei, com certa timidez.
            Ela sorriu:
            - Você é maravilhoso. Sua existência dá propósito a minha.
            Fiquei envergonhado com tamanho afeto. Minhas bochechas coraram quando a garçonete nos interrompeu:
            - O que os dois pombinhos vão querer?
            Demos uma risada e pedimos água. Ela se retirou.
            - Você também é maravilhosa. Acordo todos os dias feliz porque sei que você me ama e eu te amo. E isso basta. Não preciso de mais nada.
            - É muito bom ouvir isso. Sinto uma paz tão grande quando estou contigo!
            E, naquele fim de tarde, ali ficamos, sentados, olhando para o mundo lá fora e para o nosso mundo, eu e ela. Olhando para o incerto e para a certeza. Nossos corações palpitavam em magistral sintonia.
            [...]

            O tal abrigo provisório era um modesto bar, que, em seu meio, ficava uma grande mesa de bilhar. Sentei em sua entrada, no degrau. O estabelecimento estava completamente vazio, exceto pelo dono, nos fundos, e um homem dormindo sentado numa cadeira, com uma garrafa de pinga vazia em cima de sua mesa.
            O tal homem cheirava um pouco forte mesmo distante. Vestia uma calça social meio rasgada, estava descalço e com uma barba desgrenhada e suja. Por baixo de um casaco, nada além de uma camiseta de loja de material de construção. Fiquei sentado no degrau, ainda sem rumo, pois a chuva apertara. Raios começaram a cruzar o infinito acima de minha cabeça, com fortes trovões a ribombar pelos quatro cantos do mundo. A fúria de Zeus iniciara e percebi que teria de ficar naquele bar por algumas boas horas.
            O dono saiu de sua bancada e foi até a entrada. Olhou para mim e nada disse, apenas estendeu um pouco mais o toldo. Ficou de pé, observando o escasso movimento que ainda restava na rua. Voltou para o seu lugar.
            Passados bons minutos, cochilei. Tão rápido voltei à consciência e vi que, ao meu lado, o tal bêbado se encontrava. Ele olhava diretamente para mim. Sua pele era cor de âmbar e possuía grandes olhos castanhos, intimidadores. Assustei, pois ele me encarava de maneira enfática com um ligeiro sorriso psicótico em seu rosto.
            - É... posso ajudá-lo? – indaguei.
            Ele sorriu. Alguns poucos dentes ainda restavam de pé em sua boca.
            - Ora, meu jovem – sua voz era límpida e me parecia que não se afetara tanto pela garrafa de pinga – parece-me que quem precisa de ajuda aqui é você.
            Franzi o cenho, procurando entender o que aquilo significava. Um mendigo, perdido na porta de um bar, aparentemente não precisava de ajuda e o pobre-diabo da história era eu.
            - Hum... preciso?
            Ele abriu o casaco e retirou um pequeno e gordo frasco. Abriu sua tampa e senti um fortíssimo cheiro de álcool. Deu três goles e me ofereceu. Dispensei a bebida.
            - Bem, meu jovem... sim, precisa. Venho aqui quase todas as noites, mas não porque não tenho para onde ir. Venho, pois, é aqui que quero estar. Isto se chama liberdade. Ao meu ver, você, senhorzinho, não está aqui por mera liberdade. Chegou aqui porque é prisioneiro de escolhas passadas. Más escolhas, eu diria.
            Pedi um gole daquele líquido que ele acabara de tomar. Ele, alegremente, me entregou o frasco. Abri-o e dei um gole profundo. A bebida, forte e acre, desceu queimando minha garganta e esquentando todo o meu corpo. Com o conhaque, a coragem se criou.
            - Creio que o senhor esteja certo... não há análise melhor do que a que acabou de fazer. Queria estar em outro lugar.
            - Ora, e por que não está?
            - É difícil de explicar... estraguei tudo.
            - Más escolhas, más escolhas... todos nós as fazemos. A vida é um jogo que não nos dá um manual prévio. Aprende-se dia após dia. E, mesmo assim, ainda não sabemos de nada. Só sabemos que nada sabemos, como diria aquele filósofo. E isso já é saber alguma coisa, não?
            [...]

            Meus pais e eu andávamos por uma trilha, um tortuoso caminho de areia e pedra. O Sol escaldante nos atacava sem nenhuma misericórdia, nos desidratando violentamente. Era um domingo de manhã, e sempre – ou quase sempre – fazíamos algum passeio pela natureza, para banharmos a alma.
            Aquela fazenda que percorríamos era extensa, uma porção de terra muito vasta. A estrada vicinal era estreita e os campos ao redor eram repletos de árvores, muitas delas frutíferas. Pelo pasto, via-se um grupo de bois e cabritos, em perfeita harmonia. Em volta deles, alguns cachorros os protegiam, sempre atentos a qualquer animal estranho.
             O sentimento de proteção ali existente possivelmente não expressava amor, ou, talvez, demonstrasse uma ligeira sensação de dever. Após alguns anos, entretanto, relembrando este episódio, percebo que, muito possivelmente, os animais amam uns aos outros. Todo e qualquer extinto de sobrevivência deriva de carinho e proteção, ou seja, de amor.
            Mas amor também é sofrimento. Nenhum belo pomar se perpetua na existência terrestre sem passar por breves períodos de tortuosos outonos. As folhas caem, as pétalas se desfazem, as cores vívidas se enegrecem. O ódio percorre nossas veias, a tristeza ataca nosso coração. Mas, muito em breve, a alvorada nasce novamente, as folhas voltam, as pétalas se restauram e o mundo vive outra vez.
            Naquela trilha, via como meus pais se amavam. E via, também, seu amor por mim.
            - Mãe, se eu um dia me perder na vida, ainda continuará a me amar?
            Ela riu, como se eu estivesse dizendo a maior bobagem do mundo.
            - Filho, mas que pergunta! O amor dos pais pelos seus filhos é infinito. É transcendental, não há limites e tampouco requisitos. Existe desde a concepção ou desde o primeiro encontro. É algo inexplicável.
            Refleti sobre esta afirmação por alguns instantes.
            - Mesmo se um dia eu me tornasse um criminoso?
            - Sim, filho. Não há condições. Amaremos até o final dos tempos e além.
            - Acredite, filhão. Veja o céu logo ali!
            Não entendi o porquê de meu pai estar me falando para fazer isso, mas o fiz.
            - O que tem o céu, pai?
            - Veja como ele é infinito e, depois dele, todo o Universo a se expandir. Estamos aqui embaixo, pontos insignificantes nesta vastidão cósmica. Deus nos amou e por isso podemos contemplar a vida. Não somos nada para o Cosmos, mas somos tudo para Deus, assim como os filhos são tudo para os pais. Contemple, filho, e sinta o amor.
            Aquilo me tocou e percebi que a vida é mais do que percebemos, mais do que aquilo que os olhos são capazes de enxergar. Devemos olhar além, ultrapassar todo e qualquer obstáculo, toda escuridão pessoal. Devemos ver com o coração.
            [...]

            - Por acaso o senhor é algum tipo de professor?
            Indaguei, assustado com aquelas afirmações tão penetrantes. Nunca conhecera alguém tão sábio quanto ele, fazendo-me lembrar de meus pais.
            Ele riu.
            - Ora, nunca fui nada além daquilo que sou. O magistério que escolhi foi o magistério da vida. O verdadeiro conhecimento está naquilo que se pode, primeiramente, observar e, depois, refletir e alcançar um entendimento que os olhos não puderam lhe proporcionar. O que te aconteceu?
            - Bem... perdi tudo o que eu tinha. Decepcionei aqueles que me amavam.
            - Hum... eles te amam ainda. Talvez seu medo de os ter decepcionado te impeça de voltar para eles. Já pensou nisto?
            - Penso, todos os dias. É complicado. O que devo fazer?
            - Meu senhorzinho, ainda és jovem! E mesmo que não o fosses, seremos todos jovens até o dia em que Tânatos nos visitar. Veja o céu, cai água límpida e fecunda! Enquanto a Terra for fértil, teremos tempo para consertar nossos erros. Faça aquilo que teu coração mandar. Enfrente o medo. Ame!
            Olhei diretamente nos olhos daquele homem tão sábio e misterioso. Seu rosto marcado pelas intempéries de uma vida sem luxos, mas com rico conhecimento, me proporcionava uma nova perspectiva. Tudo aquilo que se passou em minha vida não fora nada além do que a própria vida. Más escolhas, boas escolhas, tudo se encaminhou para que eu pudesse chegar ali, naquela parca taverna, encontrar aquele homem e perceber que viver é amar e superar as dificuldades.
            Ele, então, se levantou e caminhou pela rua, seguindo seu rumo. A chuva forte ainda caía e os ventos sopravam com violência. Levantei-me e iniciei uma caminhada, na direção de onde eu viera. As gotas d’água caíam sobre mim e sentia frio, mas nada disso importava. A rua vazia era uma estrada sem fim que eu podia traçar, indo em direção ao lugar que eu nunca deveria ter abandonado. Lembranças boas vinham em minha mente, lembranças de um tempo que eu gostaria que voltasse.
Meus passos me transportavam para a vida futura.
           
           
           

           
           
           
           

domingo, 25 de fevereiro de 2018

A intervenção federal no Rio de Janeiro




            É de conhecimento geral que durante esses últimos dois anos e meio estamos vendo situações político-jurídicas nunca antes vistas em nossa sociedade. O presidente da República Michel Temer decretou Intervenção Federal na unidade federativa do Rio de Janeiro, decreto este aprovado dias depois pelo Congresso Nacional.
            O referido estado fluminense se encontra em um colapso financeiro e institucional, levando toda a unidade – e em especial a sua capital – a um caos social inédito no Brasil.
            Arrastões, tiroteios, roubos de carga, estupros, homicídios... não existe segurança; quase que todo o Código Penal Brasileiro está sendo posto em prática pelos criminosos do Rio. O que já se tornou rotina nas ruas da capital parece-me apenas uma demonstração daquilo que sempre ocorreu nos gabinetes da Administração Pública: a velha e inescrupulosa corrupção.
            Durante os vinte e nove anos de nossa Ordem Constitucional (que em poucos meses completará três décadas redondas) nunca havia sido decretada a intervenção de um ente federativo superior em um inferior. Não acontecera intervenção da Federação nos seus Estados-membros e Distrito Federal ou tampouco dos Estados-membros em seus municípios.
            A Constituição da República Federativa do Brasil elenca três dispositivos extremos que colocam em xeque, de maneira excepcional, o pacto federativo nacional, para a manutenção do mesmo. São eles: Intervenção Federal (art. 34, CF), Estado de Defesa (art. 136, CF) e Estado de Sítio (art. 137, CF). Estes dispositivos são conhecidos como Sistema Constitucional de Crises. Estas três modalidades de interrupção direta do pacto devem ser utilizadas apenas em casos extremos, pois, afinal, a Filosofia Política nos ensinou que todo Estado que tende a centralização de poder tende, necessariamente, ao totalitarismo.
            O artigo 34 da Constituição Federal elenca as situações que a Ordem Constitucional permite a Federação (União) intervir política e institucionalmente em seus Estados-membros. No caso do Rio de Janeiro, a proteção jurídica invocada foi o inciso III do retro dispositivo: “pôr termo a grave comprometimento da ordem pública”.
            O processo interventivo possui sua origem espontânea quando for decretado pelo Presidente da República (hipóteses dos incisos I, II, III e V) e tem origem provocada quando for solicitada pelos Poderes do próprio Estado-membro (inciso IV), pelo Procurador-geral da República (inciso VI, primeira parte e inciso VII) e pelo Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça ou Tribunal Superior Eleitoral (inciso VI, segunda parte).
            O procedimento espontâneo passa, necessariamente, por um controle político, ou seja, o Congresso Nacional deve aprovar o decreto para que o mesmo continue a produzir efeitos jurídicos. O procedimento provocado passa, a depender do caso, por um controle jurisdicional, ou seja, pelo julgamento do Poder Judiciário.
            O artigo 36, logo adiante, elenca os requisitos que devem ser observados para a invocação do artigo 34. Seu parágrafo 1º diz: “O decreto de intervenção, que especificará a amplitude, o prazo e as condições de execução e que, se couber, nomeará o interventor[...]”. O Presidente Michel Temer, no decreto, especificou a amplitude, ao oficializar que a intervenção será apenas na área da Segurança Pública, permanecendo as outras secretarias sob chefia máxima do governador; especificou o prazo, ao oficializar o termo final no dia 31 de dezembro de 2018; especificou as condições, ao expor algumas diretrizes intervencionistas; e, por fim, nomeou o interventor federal, General Braga Netto, do Comando Militar do Leste.
            Segundo o jurista Ingo Wolfgang Sarlet, em seu livro (em coautoria com Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero) Curso de Direito Constitucional (6ª edição, Saraiva), a expressão do inciso III do artigo 34 da CF deve ser subentendida de maneira específica: “há de ser, portanto, interpretada de modo a contemplar todo e qualquer distúrbio social violento, continuado, e em face do qual o Estado-membro (ou Estados) não tenha logrado (ou sequer o tenha tentado) resolver o impasse de modo autônomo e eficaz”.
            Vejam, pois, o cenário atual do Rio de Janeiro: uma consubstancial atmosfera de um distúrbio social violentíssimo, corriqueiro há anos e que, por ingerência, incompetência e diversos outros fatores, não foi possível que o ente federado pudesse resolver, de modo autônomo, a crise de segurança pública – isso sem falar em outras crises do estado fluminense.
            Fez-se, portanto, necessário que a Federação assumisse o comando da Segurança Pública naquela unidade.   
            Resta ao governo federal resolver o problema, minimizando possíveis efeitos colaterais que qualquer medida extrema provoca. Aos outros Estados-membros, a situação de alerta e prioridade de investimentos para a Segurança Pública deve ser sempre uma pauta executória.
            Reitero, por fim, que a solução para a violência no Brasil é simples e despida de demagogias: educação básica de qualidade, aliada a uma reforma jurídica para que se aumente as penas dos crimes graves e que seja mais difícil a progressão de regime. Além, claro, da possibilidade do condenado cumprir a pena que a ele for comutada, independentemente da quantidade de anos. Que se pague o tempo que fora condenado de fato a pagar.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Comentários sobre a independência da Catalunha

*texto retirado de artigo prévio de minha autoria para a disciplina de Direito Internacional do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, campus São Joaquim*


Toda a questão acerca da independência da Catalunha diz respeito a um ideal humano: a liberdade. Neste vasto gênero temos outras inúmeras espécies, tais como o direito à vida, a dignidade da pessoa humana, a legítima defesa e etc. Partindo de um ponto de vista social, a liberdade individual pode se transmutar em questões culturais e coletivas. Esta transmutação é a autodeterminação dos povos, uma liberdade movida pelo sentimento identitário que permite a construção de uma nação, nos sentidos jurídico e político.
Esta construção leva a nação a se moldar em estruturas representativas que fazem surgir, portanto, um país.
O grande problema - que não deveria sê-lo, se houvesse respeito no mundo - é quando este dínamo se dá dentro de um outro país já formado. A Espanha, atentando violentamente no dia do referendo contra os cidadãos catalães, tentou impedir uma votação formal. A urna derrotou a poderosa Espanha, palco de outrora um riquíssimo e destruidor reino mercante. É sabido que, na comunidade internacional, a Espanha já não apresenta a relevância necessária para ser uma potência no mundo. Por isso mesmo, sua economia é completamente dependente da região da Catalunha que, anualmente, representa 20% do PIB nacional. Isso mesmo. Repito: uma região geograficamente pequeníssima tem a maior participação na produção industrial do país.
Evidencia-se, por consequência, o grande motivo da Espanha ser veementemente contra a separação. Perderia na economia e no prestígio político.
Por outro lado, vislumbra-se no cidadão catalão - especialmente nos mais velhos - que a questão financeira não é da maior relevância. Atesta-se a este povo o sentimento nacionalista, uma vontade de se constituir uma morada própria. O catalão, o homem-médio da Catalunha, vislumbra no horizonte a formação de um Estado soberano exposto no formato de Estado-nação. Quer a construção da soberania de suas instituições representativas e governamentais, bem como da vida de seu povo.
O sentimento identitário cria no meio social uma identidade coletiva, fortemente embasado pela língua em comum e toda a História regional. Ademais, a necessidade disso se expressa por uma tão almejada Constituição própria que discorra verdadeiramente no âmbito jurídico como o catalão quer a estruturação e organização de seu país.
A Catalunha tem, no ordenamento jurídico regional, o chamado Estatuto de Autonomia, que funciona como uma espécie de lei orgânica, um regimento supremo na região. É a norma fundamental catalã. É a partir destes estatutos que os territórios autônomos exercem a sua autonomia, à sombra, sempre, da Constituição da Espanha.
            O plano do Generalitat (governo catalão) era referendar acerca da separação da Catalunha. Após, se houvesse resultado procedente, instalar-se-ia uma lei de transição jurídica, que instituiria provisoriamente uma Constituição, que duraria dois meses. Depois desta transição, haveria a formação de uma Constituição sólida, duradoura, democrática e social, bem como a instauração de um governo soberano.
            Em contrapartida, não é isso o que está acontecendo, tendo apenas o referendo sido votado. Isto se dá porque há uma repressão desumana da Espanha, atentando contra, já dito neste trabalho anteriormente, o direito natural de autodeterminação do povo catalão.
            O Estado espanhol, em sua versão, está aplicando um remédio constitucional para frear a rebelião de uma nação subordinada; é o poderosíssimo artigo 155 da Constituição Espanhola. Ele expressa:
            Artigo 155
            1. Se uma Comunidade Autônoma não cumpre as obrigações que a Constituição ou outras leis impõem, ou agem de forma a ameaçar seriamente o interesse geral da Espanha, o Governo, mediante pedido ao Presidente da Comunidade Autônoma e, no caso de para ser atendido, com a aprovação da maioria absoluta do Senado, pode adotar as medidas necessárias para obrigar o primeiro a cumprir obrigatoriamente com as referidas obrigações ou para proteger o referido interesse geral.
            2. Para a execução das medidas previstas na seção anterior, o Governo pode dar instruções a todas as autoridades das Comunidades Autônomas. 
            O trecho “... pode adotar as medidas necessárias...” é aquilo que dá ao governo espanhol base constitucional para reprimir, violentar e estraçalhar – se assim necessário – o povo catalão, sempre com o objetivo coletivo de “manter a ordem e a união” do Estado.
Percebe-se, então, que a separação da Catalunha expressa a vontade humana e coletiva, uma força social que é fomentada através da cultura e da história comum. Esta junção é o que permite aquele povo o sentimento identitário, corroborando, então, com o princípio jusnaturalista da autodeterminação dos povos.

            Ademais, conclui-se, também, que um Estado de viés totalitarista tende a reprimir atitudes libertárias, mesmo que, para isso, utilize-se de dispositivos constitucionais que permitem violações diretas a um determinado povo.

domingo, 15 de outubro de 2017

Um brinde aos mestres!

            

            Hoje é o dia do professor. Nos dias atuais, vemos pessoas que exercem esta função não para ensinar, mas para doutrinar nossos jovens e impor uma agenda política e filosófica. Apesar destes maus elementos, o Brasil ainda se sustenta pelas mãos dos bravos mestres que tentam, todos os dias, ensinar as diversas ciências que procuram explicar nosso vasto mundo e universo.
            Passamos por tempos difíceis e a educação está jogada no ralo já há algumas décadas. Nossos professores são maltratados não somente pelos governantes, mas, também, por inúmeros alunos. É uma profissão que, em nosso país, vê-se desmotivada e desprestigiada. Infeliz e pobre é o país que não reconhece os mestres que formulam o desenvolvimento do mesmo.
            É somente por meio do ensino e do consequente aprendizado que se chega a um pleno progresso. Parabéns a todos aqueles que, desde o ensino infantil até o superior, vivem para instruir o inquieto ser humano.
            O caminho é longo, entretanto, se não for percorrido, não sairemos do lugar em que nos encontramos.
            Feliz dia do professor!

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A revolução cultural e a pedofilia fantasiada de arte



           O caso do Museu de Arte Moderna de São Paulo não foi o único episódio de exposição da nudez humana a uma criança. Diversos outros aconteceram ao redor do país neste ano, sem mencionar toda a probabilidade de este comportamento ser prática reiterada nas últimas décadas.
            Saliento, a priori, que a crítica à exposição não é referente a performance de nudez interposta pelo ator. É importante deixar claro que a liberdade de expressão deve ser tutelada por todos; é um direito natural do ser humano se expressar e se comunicar.
            O grande problema do episódio ocorrido foi a manifesta exposição da nudez adulta a – pasmem! – uma criança! Sim, isso mesmo. Os vídeos que circulam pela rede mundial de computadores mostram nitidamente que havia na exposição um homem adulto nu, deitado de costas para o chão, sendo tocado por uma criancinha de menos de seis anos de idade. Esta criança tocava o homem incentivada pela – pasmem novamente! – própria mãe! O rebento tateava os pés e as pernas do homem, que possuía o falo exposto aos seus olhos.
            Aqui vale um juízo natural da narrativa citada: se você leu os relatos acima e não sentiu repulsa, algo de errado ocorre em sua cabeça. Para não deixar dúvidas, repito brevemente: uma criança é incentivada a tocar em um homem nu, que possui as genitálias à mostra, pela própria mãe.
            Tanto para o Código Penal quanto para o Estatuto da Criança e do Adolescente, este fato é caracterizado como pedofilia ou incentivo à pedofilia. Mas, apesar de todo este conjunto probatório, por que ainda existem pessoas que defendem o Museu, o ator e a mãe? Veja bem, a questão é mais séria que imaginamos. Faz-se necessário expor todo o contexto que está por trás desta camada externa.
            Os defensores se utilizam dos conceitos de “arte”. O nu humano é artístico e, sendo arte, não deve ser proibido para crianças, pois arte é a representação do próprio ser humano. Esta camada protetora consegue muitos adeptos e simpatizantes, entretanto, pergunto-me se alguma destas pessoas deixariam o filho tocar num homem nu desconhecido. Hipocrisia, talvez?
            Bem, toda esta retórica recheada de demagogias nos remete à origem de todo este círculo dialético entre arte, nudez e pedofilia. Somente analisando as forças que dominam as vontades dos envolvidos é que entenderemos o fato em sua realidade.
            Muitos já ouviram falar – e estudaram no Ensino Médio – sobre a escola filosófica conhecida como Escola de Frankfurt. Esta corrente de pensamentos pregava a destruição da sociedade ocidental e de todos os seus princípios – princípios estes judaico-cristãos -, passando pelo campo da moral e da ética. Os frankfurtianos, para desestabilizar e acabar com a cultura ocidental, utilizariam de diversos métodos para se chegar a revolução marxista. A Escola de Frankfurt, então, se tornou o maior expoente do marxismo cultural, teoria formulada pelo pensador italiano Antônio Gramsci.
            Pois bem. A busca por este objetivo transmuta-se a atacar a base de toda a sociedade humana: a família. Esta corrente diz que, para se fazer a revolução, a família deveria ser desfragmentada. Ora, mas qual o motivo disto? A resposta é pura e cristalina: a família é o primeiro grande e eficaz filtro que protege o indivíduo do Estado e de todas as grandes instituições de poder.
            Para se chegar a revolução comunista, e sua posterior efetivação, a família deveria perder seu poder, fazendo-se, então, uma ligação direta entre indivíduo e Estado; manipulação clara e iminente, poderosa e irrefreável.
            Herbert Marcuse, um dos teóricos de Frankfurt, utilizava-se da sexualidade para o ataque à família ser bem sucedido. Para o pensador, a repressão sexual dos pais em face de seus filhos pequenos era fruto da sociedade capitalista. Para tanto, a erotização das crianças e seus eventuais abusos físicos deveriam ser fomentados para que a família perdesse seu controle sobre os rebentos, acabando com a repressão do sexo oriunda do capitalismo, desestabilizando o próprio sistema.
            É inegável que os frankfurtianos se tornaram uma referência do progressismo radical no século XX, ganhando inúmeros seguidores e simpatizantes ao longo do globo, em especial, é claro, no Ocidente.
            O marxismo cultural – o mais perverso inimigo da sociedade humana – angaria adeptos nos seguimentos de esquerda da política mundial, desde os democratas americanos até os partidos brasileiros, figurando em lugar de destaque o PT, PSOL, PCdoB, PSB e demais.
            Não se engane, leitor. O episódio do MAM de São Paulo é só a ponta do iceberg, bem como a exposição do “Queermuseum” no Sul do país. O próprio Ministério da Educação tem em seu programa curricular o ensinamento do sexo para criancinhas de ensino infantil e a propagação de material sexual explícito, como no caso do conhecido “kit gay” – saliento: o problema está na erotização das crianças e não na exposição das características homossexuais.
Toda a sociedade brasileira, como já falei outras vezes no blog, está envenenada pelo marxismo cultural, com o intuito claro e manifesto de destruição da família e de toda a moral judaico-cristã, para que o indivíduo seja facilmente manipulado pelo Estado e outras instituições de poder.
A moral do Ocidente é baseada no valor do trabalho, na dignidade da pessoa humana, na proteção e construção do ambiente familiar, no respeito à propriedade privada, à liberdade de expressão, à legítima defesa e tantos outros direitos naturais e essenciais do ser humano. Com estes valores, torna-se difícil fazer a revolução comunista, que prega justamente o contrário dos referidos dogmas.
Faz-se necessário, para a esquerda, tirar a família do jogo ideológico, enfraquecendo a rede de valores ocidentais que protegem as crianças, chegando, assim, a ter grandes possibilidades de manipulação coletiva para a revolução cultural marxista. E é isso o que aconteceu no MAM.
A pedofilia evidente no Museu é fruto justamente desta onda teórica que busca desintegrar a família por meio da erotização infantil, deixando de bandeja as crianças para as instituições de poder manipularem e doutrinarem. Uma hora utilizam-se da pedofilia sob a ótica da educação sexual; outra, sob a ótica do naturismo puro; chegou a vez de se utilizar do manto da expressão artística.
Cuidado, leitores. A revolução cultural está mais viva do que nunca.        


            

Rock in Horror

           

           O Rio de Janeiro foi tomado por dois grandes acontecimentos simultâneos: a guerra do tráfico e o Rock in Rio. O primeiro, causado pela disputa de poder na Favela da Rocinha; o segundo, oriundo da busca pelo prazer utilitarista.
            Falar de violência no Brasil é, infelizmente, clichê, sobretudo em relação ao Rio. A destruição de nosso país passa por ineficiência estatal na educação básica e na prevenção-repressão dos crimes. O fato é que, nas duas últimas semanas, a capital fluminense se viu tomada de súbito por uma pequena guerra entre Nem e Rogério 157, dois grandes traficantes da Rocinha.
            O motivo é comum: a busca incessante pelo poder. Soldados dos dois chefões entraram diariamente em confronto, como em cenário de filme, portando fuzis e atirando sem a menor preocupação com o pobre cidadão comum, que só quer trabalhar e sustentar a família.
            Após dias seguidos de tiroteios e a dificuldade da polícia estadual em conter a situação, o governador decidiu, por fim, pedir auxílio ao Exército brasileiro. Foi decretado, portanto, que as Forças Armadas intervissem na Rocinha, fazendo um cerco para que ninguém entrasse ou saísse.
            A guerra às drogas é ineficiente, cara e deixa incontáveis inocentes mortos. Todos nós estamos suscetíveis a sermos vítimas do tráfico direta ou indiretamente; bala perdida, assalto, homicídio: a maioria dos crimes registrados no Brasil tem relação com o tráfico.
            A marginalização de seguimentos da sociedade nacional remonta desde a Coroa portuguesa, passando por todos os períodos da História do Brasil. A falta de planejamento na desenvoltura social e urbana fez com que o marginalizado escolhesse o modo que lhe seria mais fácil ganhar a vida: o crime.
            No Rio, até mesmo em bairros ricos, o cidadão se vê, muitas vezes, surpreendido por tiroteios, arrastões e demais absurdos. Não há ninguém seguro. Os bandidos – até mesmo os de gravata – são quem manda no país.
            Neste cenário extremo de guerra entre traficantes na maior favela das américas, a mesma cidade foi palco do tradicional e cosmopolita evento Rock in Rio – que está mais para um “Pop in Rio”, diga-se de passagem. Enquanto mães choravam por seus filhos nas favelas, milhares de pessoas se divertiam na redoma da Cidade do Rock.
            O contraste é grande. E passou despercebido pela grande mídia.
            É latente a necessidade de conectar e contextualizar as diferenças negativas que existem neste episódio.
            Um ingresso do evento custa uma fortuna. Pessoas injetaram bastante dinheiro para ganharem algumas horas de diversão, em um mundo à parte, onde os heróis usam instrumentos musicais. No outro mundo, as balas encontravam seus alvos e o terror tomava conta das comunidades pobres.
            Este cenário é característico do Brasil. Desde sempre, grandes conglomerados de elite se protegiam do verdadeiro Brasil – pobre, subdesenvolvido e violento – em suas grandiosas mansões. Nos dias atuais, esta mesma camada se esconde em eventos internacionais, clubes privados e demais espaços próprios.
            Aqueles que não tem nem o mínimo para viver sadiamente ficam expostos ao caos da guerra às drogas em verdadeiros fronts urbanos. Enquanto havia suor na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro de verdade havia sangue sendo jorrado no chão e o ar sendo respirado em forma de medo.
            Até quando este triste contraste reinará?

            

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Dom Casmurro



Dom Casmurro é uma obra que perpetua na literatura brasileira desde os primórdios de sua publicação. Permanece até os dias de hoje como uma narrativa forte e envolvente, que traz dúvidas aos leitores ao invés de um enredo de certezas e clichês. É justamente por isso que ela é tão lida, estudada e comentada. Todas as análises que giram ao redor de Dom Casmurro tratam apenas de um assunto do enredo, que seria o possível adultério de Capitu, esposa e amor de Bento Santiago, o Bentinho. Entretanto, ao meu ver, a obra é muito mais que isso. Não nego, a possível traição é um ponto chave e importantíssimo da narrativa, mas não seu eixo principal.
O livro traça uma linha de evolução do personagem. Bentinho narra sua própria história, em primeira pessoa, de um ponto do presente, melancólico e nostálgico. O personagem principal faz seu próprio livro como se fosse um memorial, um diário de lembranças. O enredo conta desde a adolescência até o momento hodierno. É justamente nos tempos de jovem que ele conhece a misteriosa e envolvente Maria Capitolina, a Capitu. O narrador acaba se apaixonando por ela, que retribui o sentimento.
O título é logo explicado nas primeiras páginas. Casmurro é uma pessoa teimosa, ranzinza, sorumbática. É assim que Bentinho se desenvolve no enredo. Ele nem sempre fora uma pessoa assim, mas, com o passar do tempo, se tornou melancólico, motivado pelos acontecimentos que o acabaram afastando da felicidade. Na adolescência era um menino alegre, festivo. Morava com sua mãe, Dona Glória; José Dias, amigo e agregado da família; Tio Cosme e Prima Justina. A época era o Segundo Reinado, de Pedro II. D. Glória queria que o filho se tornasse padre – promessa feita há muito. Bentinho então vai para o seminário onde fica muito amigo de Escobar, um personagem belo e muito educado. Bentinho sai do seminário e vai estudar Direito, enquanto Escobar – que também larga a vida de batina – vai ser um homem de negócios.
O desenrolar dos anos passam até que bem para Bentinho e Capitu, que se casam. Escobar se casa com Sancha, amiga de infância de Capitu. Os dois casais se aproximam cada vez mais, evoluindo concomitantemente. Bentinho se desanima quando Escobar e Sancha viram pais. O narrador não conseguia engravidar sua amada, fazendo-o se sentir menos viril. As coisas entre ele e Capitu, então, começam a ficar conturbadas. Como característica de narração do cotidiano do personagem, episódios esporádicos vão acontecendo enquanto o autor, Machado de Assis, interpõe pequenos detalhes e acontecimentos que levam o leitor a se dirigir para um eixo enigmático e intrigante: Capitu e Escobar, com os olhares neuróticos de Bentinho.
Acredito que houve adultério. Apesar da história ter a visão do possível traído, são explícitos alguns comportamentos duvidosos de Capitu, como por exemplo, o dia em que Bentinho encontra com Escobar na porta de sua casa, sem saber o porquê ele estava ali. A evidência mais forte é, contudo, quando o personagem principal indaga diretamente sua amada que o filho de ambos, Ezequiel, era na verdade um fruto de relacionamento dela com o melhor amigo do marido. Quando questionada, Capitu não esboça indignação – reação característica quando alguém é acusado de algo que não fez.
Capitu apenas olha para Bentinho, sem palavras, sem se defender, tendo demonstrado uma forma de mea culpa de quem aceita que, de fato, errou. Esperava-se que, se ela fosse verdadeiramente inocente, esbravejaria contra tamanha acusação equivocada. Mas não. Ficou em silêncio, como se fosse uma pecadora amordaçada. Além deste episódio, o crescimento de Ezequiel faz com que este fique parecido com Escobar. Bentinho olhava seu filho e via a imagem e semelhança de seu melhor amigo, agora já falecido no enredo.
Aumentando suas convicções, Bentinho tinha a certeza que havia sido traído e, Capitu, gerado um bastardo. Era inevitável que os dois, então, se separassem. Capitu vai para o exterior, junto do rebento, enquanto Bentinho vive sob a égide de suas mágoas no Rio de Janeiro, o pano de fundo de toda a história. Dedica-se inteiramente à profissão e também ao seu memorial. Escreve sobre sua vida para expressar a dor crônica que ela adquiriu. De um menino alegre e eternamente apaixonado ele se transformou em um homem ranzinza traído pela sua esposa, amor de infância, e até mesmo pela sua própria sanidade mental.
Trazendo a ficção para a luz da realidade, Dom Casmurro retrata de maneira fática o delírio humano. Lendo os relatos cotidianos de Bentinho, percebe-se que o narrador não se encontrava em pleno usufruto de suas faculdades mentais. A cada episódio de sua vida, mais neuroses o personagem atribuía a si mesmo. Quando Bentinho, enfim, reencontra Ezequiel, parece-me que, finalmente, encontra-se com a paz. Conversando com o agora rapaz, o narrador transmite uma atmosfera de calmaria e conformidade.
A magnum opus de Machado de Assis é escrita estabelecendo uma forte conexão com a cidade do Rio de Janeiro. Mostra nitidamente a influência do imperador Dom Pedro II na vida do brasileiro da segunda metade do século XIX, com um cosmopolitismo característico da cidade carioca. Mistura de elites com uma gama de pessoas marginalizadas, relação sempre à vista dos diversos estrangeiros na cidade, principalmente europeus. Demonstra, também, a influência do catolicismo nos ditames da vida cotidiana, sempre vivendo sob a proteção de Deus e de seus representantes na Terra, os padres. O papel do homem como chefe da família – algo inabalável à época – é contrastado com o enredo da obra que expõe a vida de Bentinho e dos parentes que viviam juntos, sempre conduzidos com a força e destreza de Dona Glória, que tem o dever de cuidar inteiramente da casa e da família após o falecimento do marido. O papel da mulher na narrativa é de protagonismo social e comportamental.
Com todas essas particularidades, Dom Casmurro é um livro extremamente prazeroso de se ler, com uma escrita intrigante e concisa. Sem dúvidas, a obra estará sempre no imaginário e nas discussões dos brasileiros por retratar um período marcante da História social do Brasil e, de maneira atemporal, as nuances e delírios da psique humana.